Júlio César Gonçalves Quaresma nasceu em 1958, na cidade de Saurimo, província da Lunda, em Angola. Pertence a uma família com raízes angolanas que remontam ao século XIX. Viveu a infância e parte da adolescência em Angola, até que, em 1975, com quinze anos, se mudou para Portugal devido ao contexto turbulento do processo de descolonização. A mudança, inicialmente pensada como temporária, marcou o início de um percurso académico e artístico que viria a torná-lo uma das figuras mais multifacetadas da cultura lusófona contemporânea.
Em Lisboa iniciou a sua formação artística, concluindo em 1979 o curso de Pintura e Desenho no Ar.Co. Em 1981 licenciou-se em Arquitetura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e, em 1983, concluiu a licenciatura em Cenografia no Curso Superior de Teatro do Conservatório Nacional. A sua formação avançada prosseguiu com o mestrado em Tecnologia da Arquitetura e Qualidade Ambiental, concluído com distinção em 1993 na Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa, com a tese A Arquitetura do Afeto. No ano seguinte completou a pós-graduação em Reabilitação de Centros Urbanos pela A.R.C.A./E.T.A.C., em Coimbra. Atualmente prepara o doutoramento em Arquitetura, Edificação Urbanística e Paisagem na Universitat Politècnica de València, em Espanha, com investigação dedicada aos paradigmas de sustentabilidade no desenvolvimento urbano em África, com foco em Angola.
A carreira de Júlio Quaresma desenvolveu-se de forma transversal, abrangendo arquitetura, artes plásticas, design, cenografia, moda, teatro e cinema. Como arquiteto, coordenou projetos internacionais de grande dimensão, entre os quais o Museu de Arte Moderna Espanhola em Tianjin, na China, e o projeto da Catedral da Muxima, em Angola — o maior centro mariano de África. Esta obra, concebida como um projeto sustentável, destaca-se por integrar na cobertura da basílica um sistema de painéis solares capaz de fornecer energia a toda a cidade envolvente, unindo espiritualidade, funcionalidade e inovação tecnológica.
No campo das artes plásticas, desenvolveu uma carreira internacional, participando em importantes bienais, como a XX e XI Bienal de Havana, a Bienal do Fim do Mundo em Ushuaia, na Argentina, e a I Trienal do Caribe em Santo Domingo. Expôs em museus e instituições culturais nos Estados Unidos, Espanha, Brasil, China e outros países, sendo que várias dessas instituições integram obras suas nas respetivas coleções. A sua produção artística abrange pintura, escultura, vídeo e fotografia, explorando frequentemente a tridimensionalidade, a máscara social e a relação entre objeto, narrativa e identidade. Em séries recentes, como Banquetes Improváveis, apropria-se de imagens do cinema e do quotidiano, reinterpretando-as numa linguagem plástica próxima da Pop Art, marcada por cores fortes, superfícies planas e referências à banda desenhada.
A sua atividade estende-se também ao design, onde criou linhas de mobiliário e peças em cristal, e à cenografia para teatro e moda. Foi docente na Escola Artística António Arroio e professor assistente no curso de Arquitetura da Universidade Lusófona, contribuindo para a formação de novas gerações de criadores.
Júlio Quaresma desempenhou ainda um papel relevante no associativismo cultural e social. Em 1990 fundou o Grupo Vértice, responsável pelo prémio Descobrir Lisboa 90, e em 1991 criou o grupo Visionista, com o qual lançou o manifesto Visionismo. Entre 2004 e 2012 foi presidente da instituição de solidariedade social SER+ – Grupo de Apoio a Pessoas com Sida, e integrou a direção da Cruz Vermelha – Núcleo do Estoril. Em 2010 foi nomeado Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da Ordem Soberana de San Juan de Jerusalém, KMFAP, e em 2015 assumiu o cargo de Ministro dos Assuntos Sociais e Solidariedade da mesma ordem.
Como crítico de arte, colaborou durante mais de duas décadas com a revista CARAS e escreveu sobre política no jornal O País, em Angola. É autor de diversos textos e ensaios publicados em revistas e catálogos internacionais, abordando temas como paisagem, identidade, modernidade e diálogo entre civilizações.
Atualmente divide o seu tempo entre Portugal, Angola e outros países onde desenvolve projetos artísticos e arquitetónicos. Trabalha em novas exposições de pintura, em projetos de revitalização urbana e na criação de uma escultura dedicada à poetisa Alda Lara para o Parque dos Poetas, em Oeiras. Considera-se um “eterno insatisfeito”, movido pela busca constante de aperfeiçoamento e pela convicção de que a essência do essencial reside no olhar, no sentir e na forma como cada indivíduo se relaciona com o mundo que o rodeia.
A sua obra, marcada pela diversidade disciplinar e pela inquietação criativa, reflete uma visão humanista, crítica e profundamente comprometida com a cultura, a sustentabilidade e a memória coletiva.