Se a vida de Fátima Moniz fosse um mapa, ela não teria fronteiras bem definidas. Nascida em Luanda, a 24 de março de 1969, foi em Benguela que fincou as suas raízes. Para a antropóloga que observa os povos, Benguela não é apenas um lugar na geografia de Angola; é o chão onde a menina Maria Fátima Glória Moniz Manuel aprendeu a ser gente. É a sua "terra", o seu porto seguro, a paisagem que moldou o seu olhar para o mundo.
Filha de Elizete de Castro e do enfermeiro Ricardo José Moniz, Fátima cresceu com o coração voltado para o próximo. Mas não pensem que a diplomata e escritora de hoje nasceu pronta. A sua história de amor com as letras e com a humanidade começou muito antes dos diplomas, num gesto simples e profundamente humano: no início dos anos 90, ainda estudante do ensino médio em Benguela, ela fundou a organização S.O.S. – Piô – Amigos da Criança. O que faziam? Levavam leite e bolachas às crianças internadas na pediatria do hospital local, fazendo o "piô piô" e espalhando brincadeiras. É aí, nesse chão de hospital, que nasce a verdadeira Fátima: a mulher que entende que a maior diplomacia é a compaixão.
A Ponte entre Dois Mundos
A vida levou-a para longe de Benguela. Formou-se em História pelo ISCED de Benguela e, mais tarde, cruzou o Atlântico para se tornar Mestre em Ciência Política pela Universidade Cândido Mendes, no Brasil. Entre 2011 e 2019, serviu como Agente Consular no Consulado de Angola no Rio de Janeiro.
E é aqui que a história ganha um sabor especial. Ao mergulhar na cultura brasileira, Fátima não se perdeu; pelo contrário, encontrou-se. Como antropóloga de si mesma, ela percebeu que as crianças de Benguela e as crianças do Rio de Janeiro brincavam das mesmas coisas, sonhavam os mesmos sonhos. Foi nesse encontro de mundos que ela começou a tecer a sua teia literária, unindo a Angola e o Brasil através da língua portuguesa, essa herança comum que nos faz "distantes, mas ao mesmo tempo muito próximos".
A Escritora e a Contadora de Histórias
Fátima Moniz, a escritora, é uma artesã de memórias. Em 2026, lançou o livro infantil "Lembranças de Infância – Contos de Brasil e Angola", escrito a quatro mãos com a escritora quilombola brasileira Pituka Nirobe. A obra é um deleite para quem estuda a infância: usando a "bina amarela" (a bicicleta angolana) e a "bicicleta cor-de-rosa", as autoras mostram que andar de bicicleta é uma linguagem universal. É um livro que, acima de tudo, faz um apelo aos adultos: "deixem as crianças serem crianças".
Mas a sua obra não se resume a isso. Ela é a alma por trás de projetos como a "Oficina de Poesia para Crianças e Adolescentes", com a chancela da União dos Escritores Angolanos (UEA), e a emocionante celebração "Uma Acácia para Alda Lara", que todos os anos reúne crianças e adolescentes na Marginal de Luanda. Além disso, é Cadeira 510 da Academia de Ciências e Letras do Brasil (ACILBRAS), representando a instituição em Angola, e participou ativamente da antologia "Avança Mulher", que celebra o empoderamento feminino e a força das mulheres angolanas.
Reconhecimento e a Simplicidade do Ser
O mundo tem reconhecido o seu trabalho. Em dezembro de 2024, foi agraciada com o título de "Doutor Honoris Causa" pela Academia de Ciências e Letras de Espanha (CIESART), um prêmio que coroa 30 anos de trabalho humanitário e altruísta. Mais recentemente, em março de 2026, recebeu em Genebra, na Suíça, o prêmio "Suisse Excellence Literature Network", pela antologia "Avança Mulher".
Mas quem pensa que Fátima Moniz se deixou levar pelos holofotes, engana-se. Aos 57 anos, mãe de quatro filhos (Rudnaura, Jaira, Breynner e Elizete) e avó de duas netas (Penélope e Yaneles), ela continua a mesma menina de Benguela que adora viajar, dançar e estar em sala de aula. Como especialista para a América do Sul na Direção América do Ministério das Relações Exteriores de Angola, ela segue construindo pontes diplomáticas. Mas a sua verdadeira diplomacia é a do afeto.
Seja a dar aulas, a escrever para crianças, ou a recitar poesia em Paris, Fátima Moniz faz exatamente o que defende: usa as suas energias criativas para promover a compreensão, curar feridas e conectar pessoas. Uma verdadeira contadora de histórias que, com um sorriso e um livro na mão, nos ensina que, no fim, todos nós, independentemente de onde nascemos, só queremos andar de bicicleta e ser felizes.
| Ano | Premiação | Organizador |
|---|---|---|
| 2016 | Suisse Excellence Literature Network | Brasil Network |
| 2025 | Doutor Honoris Causa | Academia de Ciências e Letras de Espanha |