Tem circulado nas redes sociais a ideia de que o canal do falecido kudurista Mano Chaba estaria a gerar milhões de kwanzas graças às visualizações acumuladas no YouTube. A narrativa, repetida em páginas e grupos digitais, sugere que o canal se tornou uma “mina de ouro” após a morte do artista. No entanto, especialistas alertam que a realidade pode ser bem menos glamorosa do que muitos imaginam.
Ao contrário do que muitos pensam, o YouTube não paga por visualizações, mas sim por anúncios exibidos, e nem todas as visualizações têm anúncios. Além disso, o valor pago por cada mil visualizações monetizadas varia de país para país. Regiões como Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde têm alguns dos valores de monetização mais baixos do mundo. Isso significa que mesmo milhões de visualizações podem render muito pouco, especialmente quando comparados com mercados como Estados Unidos, Portugal ou Brasil.
Outro ponto frequentemente ignorado é que nem todos os vídeos são monetizados. Conteúdos com música sem direitos claros, reclamações de copyright ou contratos antigos com distribuidoras podem impedir que o canal receba qualquer valor. No caso de Mano Chaba, muitos vídeos só explodiram após a sua morte, o que levanta dúvidas sobre quem gere o canal, como os rendimentos são distribuídos e se todos os conteúdos estão efetivamente habilitados para gerar receita.
Mesmo quando há monetização, o dinheiro não vai todo para o dono do canal. O valor é dividido entre várias partes: o YouTube retém cerca de 45% de tudo o que é gerado; distribuidoras como ONErpm, Ditox e outras podem ficar com outra fatia; produtores, beatmakers, editores e agentes também podem ter percentagens definidas por contrato; e só depois vem o que sobra para o artista ou, neste caso, para os herdeiros. No fim, o bolo fica bem pequeno, muito distante das expectativas criadas pelas visualizações.
A situação tornou-se ainda mais tensa após a divulgação de um áudio atribuído à tia de Jaime — ex-agente e amigo próximo do artista — onde são relatadas alegadas pressões e ameaças por parte da mãe do kudurista, Ana Bela Nachilombo. A família acusa antigos colaboradores de se apropriarem de bens, direitos autorais e receitas do canal, enquanto estes defendem que nada possuem do falecido e que sempre atuaram de forma digna. O caso já corre no Serviço de Investigação Criminal.
Dados divulgados pela TV Bravo indicam que o canal de Mano Chaba registou entre 8 e 15 milhões de visualizações nos últimos nove meses, gerando receitas superiores a 12 milhões de kwanzas. Embora o número impressione, especialistas lembram que estes valores não representam lucro líquido, já que o montante é dividido entre YouTube, distribuidoras, contratos antigos e eventuais intermediários. No fim, o valor que chega aos envolvidos pode ser muito inferior ao que o público imagina.
A polémica ganhou novo fôlego após a divulgação de mensagens entre o rapper Deezy e o kudurista Jurista Kudurista. Nas conversas, Deezy afirma estar cansado da pressão e garante possuir provas de que nunca recebeu dinheiro do Mano Chaba. Também menciona que a conta do YouTube estaria vinculada a contratos com outros artistas, o que complica ainda mais a disputa. Jurista, por sua vez, afirma não possuir qualquer bem do falecido e defende que tudo deve ser resolvido entre os responsáveis legais.
Nas redes sociais, o público divide-se: uns defendem que os amigos foram essenciais para manter viva a obra do artista; outros acreditam que a família tem direito a todos os rendimentos. No meio da confusão, o legado do Mano Chaba continua a crescer online, mas a turbulência em torno da sua memória mostra como a falta de informação sobre monetização digital pode transformar números em armas e suspeitas em conflitos.
O caso segue em investigação, enquanto a obra do kudurista permanece entre as mais ouvidas da nova geração — um testemunho do impacto que deixou, mesmo após a sua partida.