A literatura angolana perdeu, no dia 17 de março de 2026, uma das suas vozes mais vibrantes e singulares: Isabel Jussara Neto, conhecida como Bel Neto. Escritora, poetisa, slammer e mãe, Bel destacou-se pela força da palavra falada e pela capacidade de transformar temas sociais em poesia viva, crítica e profundamente humana.
Nascida em 1986, Bel Neto conquistou leitores e plateias com a sua presença marcante. Em eventos como o Soletrar, emocionou ao recitar com elegância e intensidade, chegando a interpretar poemas da obra Orgasmo no Papel, de Julieta Valentim. A sua performance poética, sempre carregada de luz e propósito, tornou-a uma referência no movimento spoken word angolano.
A autora publicou obras que atravessaram diferentes públicos e géneros. Em 2023, lançou Outras Formas de Pôr na Grafia, um livro que desafiava estruturas e reinventava linguagens. No mesmo ano, apresentou O Pequeno Mona e a Árvore dos Direitos, dedicado ao público infantil e centrado na cidadania e consciência social. Já em 2025, publicou O Lugar de Crime, uma colectânea de contos marcada pela crítica social e pela estética intensa que caracterizou o seu percurso.
As suas obras não foram apenas lidas: foram vividas e debatidas em clubes de leitura, como o Berço e o Handyman Clube de Leitura, e em espaços culturais como a Biblioteca Contr’Ignorância, onde Bel era presença próxima e inspiradora. A sua escrita, profundamente comprometida com as questões femininas, procurava dar voz às mulheres e reivindicar o seu lugar na sociedade.
A morte de Bel Neto representa uma perda irreparável para a cultura angolana. Ainda assim, o seu legado permanece vivo nas páginas que deixou e nos caminhos que abriu para novas gerações de leitores e escritores. As suas palavras continuam a germinar, lembrando-nos que a literatura pode ser resistência, afeto e transformação.